VIDAS SECAS – Graciliano Ramos

Capa de “Vidas Secas”
Créditos da Imagem: Editora Record

Graciliano Ramos (1892 – 1953) é conhecido pela sua literatura riquíssima em vocabulários nordestinos, e VIDAS SECAS, uma das obras mais significativas do autor, foi escrita entre 1937 e 1938 e retrata uma situação muito fiel ao povo nordestino: a seca.

A narrativa em terceira pessoa mostra o ponto de vista de cada personagem no decorrer do livro, explorando não só os cenários externos, mas, também, os seus conflitos psicológicos.

O drama é de uma família sertaneja, cuja rotina de vida é vagar procurando terra fértil que permita sua ocupação temporária. Um livro que me fez acompanhar o sofrimento de uma família oprimida pelo sistema, buscando sobreviver à seca que assola o sertão.

Composto por 13 capítulos, a maestria da escrita de Graciliano se fez presente quando reparei que o autor nos dá a liberdade de lermos em qualquer ordem, porque cada capítulo dá voz a um personagem e tem seu enredo próprio. Porém, ao terminar o livro, percebi que, embora os capítulos sejam independentes, existe uma forte ligação entre o início e fim da história, que perde a força se lidos em separado.

Nos primeiros parágrafos do livro, Graciliano nos descreve o cenário e apresenta os personagens, para, depois, nos fazer perceber que cada membro da família, do seu jeito, possui sonhos e anseios.

Fabiano (o pai), Sinhá Vitória (a mãe), os dois meninos e Baleia, a cachorra, que de tão solidária, é inevitavelmente humanizada pelos leitores.

Essa humanização de Baleia, a propósito, me chamou muito a atenção no livro. Os personagens, embora dotados de sentimentos, mostram-se brutos, sem dar-se a diálogos ou manifestações de relacionamento humano. Já Baleia, com gestos e olhares, descreve com detalhes a realidade da família, sem deixar de lado seus sonhos particulares.

Difícil não se encantar com Baleia. Observadora e sensível, destaca-se no livro até mais que os próprios meninos, que são chamados de “mais novo” e “mais velho”, simbolizando, pela ausência dos nomes, toda uma identidade das vítimas do descaso social.

Fabiano e sua família enfrentam, além dos males externos, como a seca, a fome, a exclusão e a injustiça, também seus conflitos internos. Muito do interior dos personagens é explorado.

Em cada capítulo, adentrei em suas percepções individuais, como se me sentisse parte daquela família. A profundidade da escrita me levou a construir a sequência de vida de cada personagem, ao mesmo tempo que me fez desenhar um cenário geral da luta pela sobrevivência com a seca no Nordeste.

VIDAS SECAS nos obriga a refletir sobre o “ter” e o “ser”. Sobre nossos costumes, nossas facilidades, nossa comodidade. E, com isso, nos leva a reflexões mais profundas, como nossa falta de coragem em soltar as amarras que nos aprisionam. Leva-nos a perceber uma realidade tão distante, conduzindo-nos a nos imaginar dentro dela.

E se? Como seria?

Graciliano Ramos fez de VIDAS SECAS uma das maiores críticas regionais na época e com isso, tornou-se um dos mais importantes autores da segunda fase modernista.

Sinopse

Em VIDAS SECAS, Graciliano Ramos se mostra mais humano, sentimental e compreensivo, acompanhando o pobre vaqueiro Fabiano e sua família com simpatia e uma compaixão indisfarçáveis. Além de ser o mais humano e comovente dos livros de ficção do autor, VIDAS SECAS é o que contém maior sentimento da terra nordestina, daquela parte que é áspera, dura e cruel, sem deixar de ser amada pelos que a ela estão ligados teluricamente. O que impulsiona os seres desta novela, o que lhes marca a fisionomia e os caracteres, é o fenômeno da seca. VIDAS SECAS representa ainda uma evolução na obra de Graciliano Ramos quanto ao estilo e à qualidade estritamente literária.

Esta nova edição teve como base a 2ª edição do romance, com as últimas correções feitas por Graciliano Ramos. Os originais estão no Fundo Graciliano Ramos, Arquivo do Instituto de Estudos Brasileiros da Universidade de São Paulo. Este projeto de reedição da obra de Graciliano Ramos é supervisionado por Wander Melo Miranda, professor titular de Teoria da Literatura da Universidade Federal de Minas Gerais.

Ficha Técnica

Editora: Record
Autor: Graciliano Ramos
Categoria: Ficção
Formato: 14×21 cm
Ano de Lançamento: 1938
Número de Páginas: 176

Tags:

Ale Dossena

Ale Dossena é curitibana, tem licenciatura em Letras e é pós-graduada em Administração de Empresas, atuando como autora, professora, produtora de conteúdo e apresentadora do canal “Portão Literário” no YouTube.

Deixe seu comentário