A sabedoria de Tolkien: O discurso de SAM


O discurso de SAM em “O Senhor dos Anéis – As Duas Torres”

Sam e Fro em cena de "O Senhor dos Anéis: As Duas Torres Créditos da Imagem: New Line Cinema

Sam e Frodo em cena de “O Senhor dos Anéis: As Duas Torres
Créditos da Imagem: New Line Cinema

De vez em quando, bate uma tristeza sem motivo, um desânimo sem fim, um aperto no coração que é impossível de expressar, quando o sol se esconde e cada dia que passa parece ser mais e mais escuro. A dor é latente, a alegria e a esperança se vão. É como estar em um limbo, é como tentar seguir em frente e ter a sensação de ter lutado em vão. O tempo voa e a dor continua como em um pesadelo sem fim. Sem terror, sem sustos, sem monstros ou algo parecido, apenas um simples – e aterrorizante – vazio.Depressão? Não, de forma alguma. Algo de ruim aconteceu? Tampouco foi isso. Então, como explicar? Não há explicação, simplesmente existem momentos na vida em que tudo parece dar errado, em que tudo pelo que lutamos e o bem que fizemos foram em vão.

O sentimento se resume mais ou menos nas as últimas palavras de Roy Batty (Rutger Hauer) em Blade Runner:

Todos esses momentos se perderão no tempo, como lágrimas na chuva.

É assim que imagino Frodo no final de O Senhor dos Anéis – As Duas Torres. Naquele momento, ao quase perder o anel para um dos espectros, salvo por SAM, Frodo parece estar em um mar de tristeza sem fim, uma escuridão que agride a alma e o coração. Um vazio que não tem fim. Um oceano de tristeza e dor. Naquele momento, Frodo chega muito próximo de sucumbir ao mal, à escuridão. Ele quer desistir; como seguir adiante? Como enfrentar tamanho mal e escuridão? O que ele, um simples e humilde hobbit pode ou poderia fazer para cumprir sua missão? O tão pesado fardo que lhe fora colocado sobre suas costas quase o arrasta para o fim.

SAM, sempre ele, sempre encontrando esperanças onde não há, ou talvez não houvesse, discursa para Frodo em um dos mais emocionantes momentos da trilogia do anel e o grande ponto alto daquele que é considerado o mais fraco dos três filmes.

Analisar o discurso ponto a ponto seria uma tarefa árdua e não caberia aqui, os aspectos filosóficos são muitos. Quero resumir tudo em uma palavra: esperança.

SAM, após dizer que eles nem deveriam estar ali, sabiamente menciona as grandes histórias, as que realmente tinham importância. Da mesma forma continham escuridão e perigo, e como poderiam ter um final feliz? Em momentos semelhantes que passamos em nossas vidas, podemos aplicar de forma prática o que o sábio e fiel SAM nos diz: tudo é passageiro, até a escuridão tem que passar.

Um novo dia virá. E quando o sol brilhar, brilhará ainda mais forte.

Eram essas as histórias que ficavam em nossas lembranças, que realmente significavam algo. Mesmo que fossemos pequenos demais para entender. E aqui o pequeno nada tem a ver com o tamanho diminuto de nossos queridos amigos hobbits. Somos nós mesmos. Pequenos na imensidão do universo.

Mas, claro que é possível entender. SAM é um mestre com as palavras. Como entender? As pessoas dessas histórias, ou até mesmo nós, tínhamos oportunidades de voltar atrás, mas não voltávamos, seguíamos em frente porque tínhamos ao que nos agarrar.

No quê? No bem que ainda existe neste mundo, e pelo qual vale a pena lutar.

E em que nós nos agarramos, Sam?, pergunta Frodo.

No bem que existe neste mundo. Pelo qual vale a pena lutar”.

Muito obrigado!

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Andreas Pabst é membro da Tolkien Society, a mais respeitada organização de estudos da obra de Tolkien no mundo, professor de inglês há mais de 10 anos e também tradutor.

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